quarta-feira, 18 de maio de 2011

A Salvação e o ser salvo: fácil ou difícil?



A Salvação e o ser salvo: fácil ou difícil?

A salvação tem na graça de Deus sua fonte (Efésios 2:8), mas essa salvação pela graça custou a vida do Filho de Deus (João 3:16). Dessas duas verdades bíblicas surge a compreensão de que “a salvação é de graça, mas não é barata”.[1]
            A salvação revela diferentes nuances do caráter imutável (Malaquias 3:6) de um Deus superlativamente Santo (Isaías 6:3), que “perdoa a iniqüidade, a transgressão e o pecado, ainda que não inocenta o culpado” (êxodo 34:7, itálicos supridos).
            Perdão e justa punição acompanham o trato de Deus com os pecadores seres humanos. “O caráter de Deus revela uma inigualável mescla de graça e justiça, uma plena disposição de perdoar com decidida indisposição de ignorar a culpa.” [2] E nem sempre é fácil compreender plenamente de que forma Deus “equaciona” a relação entre conceder perdão ao indigno pecador ou aplicar o justo e terrível castigo do pecado sobre o culpado de transgredir sua imutável e santa lei.
            É importante, de início, já atentarmos para a seguinte realidade: o fato que “faz” com que Deus salve alguns ou deixe outros a perecer não é o merecimento, ou suposta dignidade humana (no caso dos salvos), ou uma “especial” indignidade, e rebeldia pecaminosa (no caso dos pedidos), mas sua livre e maravilhosa graça.
Todos os seres humanos são reputados na Palavra de Deus como “igualmente” pecadores imperfeitos[3], a despeito das reais diferenças que poderiam ser apontadas no grau e extensão de maldade com que os pecados manifestaram essa imperfeição na vida de cada ser humano especificamente.
Deus tem misericórdia de quem ele “quer” (êxodo 33:19). E reações humanas ao amor de Deus e à sua verdade como: fé, amor e arrependimento não são obras humanas que concedem salvação ao homem por si mesmas, mas são elas próprias dons da graça de Deus concedidas ao homem.[4] Isso não nega a liberdade do homem em crer, amar (a Deus), ou se arrepender livremente[5], mas nega que o homem possa produzir essas realidades espirituais separado de Deus, por si mesmo, passando a “merecer” a salvação por ter crido, ou amado a Deus em resposta a seu amor primordial, ou se arrependido de seus pecados contra o céu, pois todos esses são frutos, e não, fontes de salvação.
            O meio através do qual Deus nos salvou foi a cruz de Jesus Cristo (1 Cor 1:18), na qual ele derramou seu sangue e através da qual ele obteve “eterna redenção” (Hebreus 9:12).
            Essa eterna redenção (αιωνιαν λυτρωσιν) é: “eterna em seus méritos e eficácia[6]”. “suficiente para todas as pessoas de todos os tempos... (é a purificação de) todos os pecados passados, presentes e futuros em um só ato de redenção[7]”.
A salvação é uma resposta à experiência do pecado, e revela de forma cristalina alguns dos mais impressionantes atributos do caráter de Deus, e a redenção descrita no livro de Hebreus, através da qual Deus realiza a salvação eterna (Hebreus 5:9), tem por contexto:
1)      A aliança eterna (Hebreus 13:20).
A salvação da humanidade foi decidida antes do pecado do homem, e a aliança eterna entre o Pai e o Filho foi estabelecida antes da fundação do mundo garantindo redenção e salvação à raça caída pelos enganos de satanás, pois Cristo é “o cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo (Apocalipse 13:8).
Estudiosos vêem um paralelo dessa aliança eterna com a nova aliança de Jeremias 32:40 e Hebreus 8:8-13.[8]
2)      O perfeito auto-sacrifício oferecido pelo filho de Deus em nosso favor (Hebreus 9:14)
A morte substitutiva e vicária de Jesus Cristo em favor dos pecadores era uma necessidade[9] para que a redenção fosse efetiva[10], e ela foi realizada de forma absolutamente perfeita na cruz de Jesus Cristo, nada lhe faltando.
3)      A herança eterna (Hebreus 9:15).
A salvação tem como objetivo e resultado final a concessão de uma vida eterna, imortal, perfeita e sem pecado para todo o sempre para aqueles que foram objetos da eterna redenção realizada por Jesus Cristo na cruz do calvário, e sem isso a redenção seria apenas uma fantasia sem sentido e sem propósito.
A salvação eterna, entretanto, foi “anunciada pelo Senhor, e confirmada pelos que a ouviram” e testemunhada por Deus “através de sinais, prodígios e vários milagres e por distribuições do Espírito Santo” (Hebreus 2:3-4), sendo uma realidade espiritual que implica na “restauração de todas as coisas” (Atos 3:21), um retorno à perfeição original (Gênesis 1:31) onde não há pecado ou morte (Apocalipse 21:1,4) para todo o sempre (22:5).
Porém, no mesmo livro onde temos a alusão à obra de Jesus Cristo obtendo “eterna redenção”, com todas as suas implicações absolutamente radicais em torno de uma perfeita segurança e inabalável confiança na salvação por parte dos que crêem no autor da salvação, temos alguns vislumbres que nos conduzem a uma realidade um pouco mais sombria, em certo sentido, quando lemos:
É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia. Porque a terra que absorve a chuva que freqüentemente cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é também cultivada recebe bênção da parte de Deus; mas, se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição; e o seu fim é ser queimada.” (Hebreus 6:4-8).
  
            “Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários. Sem misericórdia morre pelo depoimento de duas ou três testemunhas quem tiver rejeitado a lei de Moisés. De quanto mais severo castigo julgais vós será considerado digno aquele que calcou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado, e ultrajou o Espírito da graça? Ora, nós conhecemos aquele que disse: A mim pertence a vingança; eu retribuirei. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo.Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo.” (Hebreus 10:26-31)

Negar a salvação pela graça mediante a fé (Efésios 2:8), ou a eterna redenção (Hebreus 9:12) por causa dos textos de Hebreus 6:4-8 e 10:26-31, ou negar os primeiros textos por causa dos últimos é uma irresponsabilidade hermenêutica que nega as palavras de Jesus (João 17:17), e de Paulo, inspirado pelo Espírito Santo (2 Timóteo 3:16), e que se baseia na falta de conhecimento e/ou de entendimento das coisas espirituais.[11]
Portanto é imperativo que todos os que crêem em Cristo e na Palavra de Deus entendam as implicações naturais que surgem da harmonização desses e de outros textos de forma a entender a verdade única que a Palavra de Deus ensina a respeito da salvação em suas múltiplas nuances como um todo.
É fato que existem passagens na Bíblia que indicam ser a salvação por demais descomplicada e incrivelmente fácil de se tornar uma realidade efetiva na vida de um pecador, bastando que ele cumpra etapas bastante simples em torno de aspectos espirituais como por exemplo: crença e fé, alguns desses textos da bíblia são bastante conhecidos por todos que se apegam às promessas de salvação neles contidas, alguns desses textos são:
“Quem crer e for batizado será salvo” (Marcos 16:16); “Crê no Senhor Jesus e saras salvo, tu e a tua casa” (Atos 16:31); “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego” (Romanos 1:16); “Mas a Escritura encerrou tudo sob o pecado, para que, mediante a fé em Jesus Cristo, fosse a promessa concedida aos que crêem” (Gálatas 3:22);  “E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Atos 2:21);
            Esses textos são bastante claros e todos descrevem uma relação de confiança no Senhor, autor e consumador da fé (Hebreus 12:2), que nos concede sua salvação pela graça mediante a fé[12]: justificando[13], santificando[14] e glorificando[15] o pecador pelo poder de seu amor que redime o homem de sua culpa[16] e que adquiriu o pleno direito de salvar o homem dos seus pecados pelo sacrifício realizado na cruz do Calvário[17] na qual ele obteve eterna redenção, através do sangue derramado por nós, pelo qual ele mais tarde adentrou na presença de Deus no Santuário Celestial como representante e salvador dos pecadores[18].
            A salvação humana, dessa perspectiva, parece ser uma dádiva extremamente generosa (uma vida perfeita e eterna) a ser recebida de forma extremamente fácil e simples por “todo aquele que crer”. Mas nessas exigências: de crer, ou de ter fé, para “o tomar posse” da salvação já se revelam as primeiras dificuldades com a interpretação popular que entende o crer em Deus, ou no evangelho, como apenas um assentimento intelectual de concordância relativamente “piedosa” com algumas partes da revelação bíblica, recebidas e propagadas simplesmente por tradição religiosa, mas sem uma real convicção, e que por fim não gera genuína vida espiritual naqueles que a professam.
Diante desse quadro a Palavra de Deus nos diz claramente:
Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios crêem e tremem. (Tiago 2:19); Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta. (Tiago 2:14, 17).
            A Palavra de Deus se manifesta contra uma noção simplista, infrutífera e estéril de fé/crença em Deus como única prerrogativa para a salvação! Claro, que uma “crença” ou “fé” realmente bíblica é suficiente para a salvação, como textos já mencionados anteriormente demonstram, mas essa crença/fé inclui:
Uma vida cujo coração é purificado pela fé (Atos 15:9); Obedecer (ao evangelho) por fé (Rom 1:5); permanecer firme na fé (1 Cor 16:13); Uma atitude de amor através da qual a fé se manifeste na realidade (Gálatas 5:6); Fazer o bem (Gálatas 6:10); Uma vida que progride na fé com alegria (Fil 1:25); ser “sadio na fé” (Tito 1:13).
Tais frutos revelam onde existe fé bíblica verdadeiramente, e conquanto não possamos fazer desses frutos novos “tipos de obras meritórias” através das quais conquistamos a salvação, não podemos igualmente admitir que efetivamente existe fé salvífica onde esses frutos não se manifestam.
Diante disso, a salvação dos pecadores já não parece tão simples e fácil como poderíamos pensar em primeira instância e há textos bíblicos importantes, além de Hebreus 6:4-8 e 10:26-31, para confirmar tais fatos:
“Porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela.” (Mateus 7:14) “Respondeu-lhes: Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não poderão” (Lucas 13:24); “Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado.” (1 Cor 9:27). “E, se é com dificuldade que o justo é salvo, onde vai comparecer o ímpio, sim, o pecador?” (1 Pedro 4:18); Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno? (Mateus 23:33).
Uma proposta de compreensão
            Na caminhada cristã, na compreensão teórica e experiência prática da salvação proclamada na Palavra de Deus, essa dinâmica é enriquecedora, antes que contraditória, e nos resguarda de erros mortais para a alma.
            Algumas pessoas, quando entram em contato com a doutrina cristã na bíblia e na igreja ficam admiradas (geralmente negativamente) com um fato intrigante: A salvação para quem está perdido é muito fácil! Basta aceitar a Jesus Cristo como Salvador pessoal de forma sincera e está feito! Mas a salvação é muito difícil para quem já está salvo! Os salvos devem tomar cuidado com seus pensamentos e comportamentos ao grau da perfeição, e se não fizerem isso, facilmente eles serão reprovados quando Jesus voltar!
Mas é importante saber que a Palavra de Deus não se contradiz, e que muitas vezes essas interpretações não correspondem aos textos bíblicos tantas vezes usados para pregar uma salvação fácil aos “perdidos”, e uma salvação difícil aos “salvos”. Mesmo por que, isso por si só é um paradoxo, uma contradição e um contra-senso.  
A “facilidade” da salvação nos resguarda de desistirmos dessa salvação por nossas imperfeições. A graça de Deus, imerecida, aceita pela fé, e que é totalmente suficiente para nossa salvação é uma verdade cristalina na Bíblia, e temos o direito de participar dessa salvação se cremos em Cristo de todo o nosso coração. E nada pode mudar isso!
A dificuldade com que o justo é salvo (1 pedro 4:18), por sua vez, nos resguarda de acariciarmos compreensões equivocadas sobre a natureza da salvação pela fé, e da misericórdia de Deus. Deus justifica pecadores, e não o pecado. E não podemos diminuir a dimensão extremamente maligna e terrível do pecado em nome da graça de Deus. Por isso que, como pecadores, devemos sempre ser alertados dos perigos de crer numa salvação através de uma fé puramente teórica, e que em nada muda a vida de ninguém, pois o resultado é que não haveria diferença entre salvos e perdidos em sua forma de pensar e de viver.
Seremos salvos por graça, mas não devemos usar essa graça como desculpa para libertinagem! Pelo contrário. Somos salvos pela graça, mediante a fé, e isso não vem de nós! Mas Deus nos criou e nos redimiu e preparou boas obras para que nelas andássemos. (Efésios 2:8-10).



[1] Ou seja, a salvação é gratuita para o pecador que a recebe pela fé, não podendo ser conquistada por obras meritórias (Tito 3:5; Efésios 2:9), mas custou um alto preço: o sofrimento e morte do “autor da salvação” (Hebreus 2:10) e redentor da humanidade.
[2] Nisto Cremos, 137.
[3] Romanos 3:9-18 demonstra a universalidade do pecado dentre judeus (os que conheciam a lei de Deus e tinham os oráculos do Altíssimo) e gentios (os que não tinham a revelação especial, mas tinham a revelação natural e mesmo com ela eram culposamente infiéis (Romanos 2:19-32).
[4] Romanos 12:3 em relação à fé; 1 João 4:19 em relação ao amor; Romanos 2:4, e Atos 5:31 em relação ao arrependimento.
[5] Deus não nos obriga: a crer (Marcos 16:16 mostra que a pessoa deve “decidir” se crê e quer ser batizada ou não), a amá-lo (João 14:15 mostra que devemos guardar os mandamentos se amamos a Cristo) ou a nos arrepender dos nossos pecados (Isaías 1:19-20 diz que o fruto do perdão, que vem após o arrependimento [Lucas 13:3 e 5, 1 João 1:9] será nosso se quisermos e ouvirmos). Se não fosse assim, Deus obrigaria todas as pessoas a se salvarem, pois deseja a salvação de todos (2 Pedro 3:9), mas o fato é que, mesmo sem negar nossa escolha pessoal, o Senhor não nos permite produzir as realidades espirituais que conduzem à salvação por nós mesmos, independentemente dEle (Ninguém pode vir a mim se o Pai não o trouxer... João 6:44).
[6] Clarke, Adam: Clarke's Commentary: Hebrews. electronic ed. Albany, OR : Ages Software, 1999 (Logos Library System; Clarke's Commentaries), S. Hb 9:12
[7] MacArthur, John: Hebrews. Chicago : Moody Press, 1996, c1983, S. 229
[8] “A nova aliança é uma eternal aliança”. Westcott, Brooke Foss (Hrsg.): The Epistle to the Hebrews the Greek Text With Notes and Essays. 3d ed. London : Macmillan, 1920 [c1903, S. 450
[9] Lucas 9:22, Atos 17:3, Hebreus 9:16.
[10] Sem derramamento de sangue não há remissão (Hebreus 9:22)
[11] Oséias 4:6, Lucas 2:50, João 8:43, 1 Cor 2:14.
[12] Efésios 2:8
[13] Romanos 3:28, 5:1; Gálatas 2:16.
[14] Atos 26:18; Romanos 6:22; 1 Cor 1:2; Hebreus 10:14, 12:14.
[15] Romanos 8:30.
[16] 1 Cor 5:19; Col 2:13.
[17] Col 2:14.
[18] Hebreus 9:12

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