sábado, 2 de janeiro de 2016

O que fazer enquanto o sensacionalismo se alastra?

...que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro. (Efésios 4:14)

Uma das acepções do termo sensacionalismo é a de definir o envolvimento de pessoas em “divulgar notícias exageradas e/ou que causem sensações” igualmente exageradas (Dicionário Michaelis). O poder das várias redes sociais às quais as pessoas estão expostas e conectadas na atualidade serve como veículo perfeito para a propagação rápida e ampla de tais notícias. O fenômeno corresponde a muitos setores da sociedade que terminam formando blocos mais ou menos homogêneos em torno da divulgação de interesses e ideologias em comum. Variadas questões políticas, sociais e também religiosas encontram expressão sensacionalista e são comumente divulgadas em diferentes formatos e com variados graus de alcance em potencial entre diferentes grupos.

Entre os adventistas do sétimo dia, quando o sensacionalismo se manifesta, ele o faz principalmente em dois formatos: aqueles que representam versões mais ou menos populares da fé adventista dirigidas para fora da igreja (e.g. notícias sobre pretensos bastidores atuais em torno do “decreto dominical”; ou sobre o papel do Papa Francisco no ecumenismo; etc.) e expressões de compreensões individuais polêmicas no contexto da igreja usadas para exacerbar possíveis divisões internas entre os crentes (e.g. notícias sobre uma pretensa infiltração de jesuítas nos altos escalões administrativos ou teológicos da IASD; acusações de heresia em torno de desenvolvimentos teológicos variados pelos quais a igreja passou nas últimas décadas; etc.).

A igreja forma um grupo social de interesses em comum e é impossível limitar a predileção de todos os seus membros por temas abordados de formas mais sensatas ou equilibradas em relação às suas formulações sensacionalistas e, além disso, a simples capacidade de diferenciar uma coisa da outra implica numa educação de qualidade mínima em hermenêutica bíblica, dentre outras matérias essenciais como cosmovisão e apologética, coisa dificilmente implantada na cultura da igreja de forma geral. Se incluirmos nessa problemática o fato de que mesmo alguns ministros e leigos bem educados também manifestam tendências sensacionalistas inequívocas, percebemos que estamos diante de um fenômeno espiritual, psicológico e sociológico complexo que não será fácil ou rapidamente resolvido.

O que é “sensacional” chama naturalmente a atenção, gerando engajamento e reações variadas por parte das pessoas, podendo gerar fama e lucro dento de um grupo, mas nem todos os cristãos conseguem avaliar as origens ou tendências perigosas do sensacionalismo sob um prisma razoável ou bíblico. A urgência impressa numa forma radical e contundente de ler a realidade da igreja, aliada à excitação de preconceitos e temores espirituais na direção de que indivíduos e famílias da igreja estariam com sua própria salvação em risco em função da mera existência de certos elementos humanos ou teóricos na administração ou na teologia da igreja, gera um clima de fanatismo travestido de senso de fidelidade a Deus e cria conflito amargo entre personalidades e ideias diferentes.

Quando o sensacionalismo se instala numa comunidade, facilmente a Palavra de Deus se torna secundária e submetida a interesses e entendimentos teológicos específicos. Por exemplo, o radicalismo de pessoas que estão totalmente dispostas a defender a apostasia da igreja em função de pretensos “estilos musicais mundanos” com “ritmos satânicos”, facilmente ignora o silêncio absoluto da Bíblia sobre tais assuntos específicos (estilo musical, ritmo), e ainda distorce aquilo que está revelado em torno dos instrumentos musicais permitidos na adoração a Deus na tentativa de tornar sua compreensão plausível e minimamente bíblica (cf. 1 Sm 10:5-6; Sm 81:2; 150:4). A disposição em propagar teorias que terminam por minar ou atrasar o desenvolvimento administrativo e teológico da igreja, baseadas unicamente em supostas infiltrações de sociedades “secretas” (que presumivelmente já deixaram de ser secretas pelo simples advento do fenômeno “Google”), demonstra dificuldade em abordar as questões da administração e da teologia da igreja de forma profissional, bíblica, acadêmica e, sobretudo, espiritual (Lc 6:31; At 17:30; 1 Tm 5:19; Ap 2:24; 22:18-19). Expor essas dificuldades em determinados tempos e de determinadas formas pode ser tarefa ingrata e complicada pelo potencial de excitar mais ainda os assuntos assim desmascarados, por isso, precisamos de sabedoria do alto sobre quando falar e quando calar (Ec 3:7).


Por fim, enquanto o sensacionalismo avança como resultado da obra de Satanás, da natureza pecaminosa humana e do potencial tecnológico contemporâneo, devemos nos dedicar à edificação da igreja naqueles pontos que Paulo indicou a Timóteo: “leitura, exortação e ensino” (1 Tm 4:13). Buscar entendimento sobre as amplas realidades do mundo, bem como das múltiplas origens e modos de operação dos sensacionalistas em geral a fim de atingir seus objetivos. Desenvolver discernimento sobre os assuntos que geram polêmicas dentro da igreja e se empenhar no esclarecimento dos cristãos através do ensinamento bíblico de qualidade é o que nos resta na luta contra todo “vento de doutrina” surgido da “artimanha dos homens” que por sua astúcia “induzem ao erro” (Ef 4:14).
Graça e Paz

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